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14 min de leituraNeurovascular
Enxaqueca e forame oval patente: existe relação?

Enxaqueca e forame oval patente: existe relação?

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A enxaqueca é uma doença neurológica que pode causar dor de cabeça, náuseas, sensibilidade à luz e ao som e, em algumas pessoas, sintomas chamados de aura. O forame oval patente, conhecido pela sigla FOP, é uma pequena comunicação entre as câmaras superiores do coração que permanece aberta depois do nascimento.

Essas duas condições aparecem associadas em diversos estudos, principalmente quando a enxaqueca ocorre com aura. Essa observação despertou interesse sobre a possibilidade de o FOP participar das crises e sobre os efeitos de seu fechamento. Entretanto, associação não significa causa.

O FOP é frequente na população e geralmente não provoca problemas. A enxaqueca também é comum e possui mecanismos neurológicos complexos. Encontrar as duas condições na mesma pessoa não permite concluir que uma seja responsável pela outra.

Por isso, nem toda pessoa com enxaqueca precisa investigar FOP, e o fechamento dessa comunicação não faz parte do tratamento rotineiro da doença. A avaliação precisa considerar os sintomas, o histórico clínico, a presença de aura, eventuais eventos vasculares e os benefícios e riscos de cada conduta.

O que é enxaqueca?

Enxaqueca é uma doença neurológica, e não apenas uma dor de cabeça forte. Suas crises podem incluir dor pulsátil de intensidade moderada ou forte, piora com atividades habituais, náuseas, vômitos e sensibilidade à luz, aos sons ou aos cheiros.

A apresentação varia entre as pessoas e até entre crises da mesma pessoa. Algumas sentem dor em um lado da cabeça. Outras apresentam dor nos dois lados. Também podem ocorrer cansaço, dificuldade de concentração e alterações do humor antes ou depois da fase de dor.

O diagnóstico é clínico. O médico avalia o padrão dos episódios, a duração, os sintomas associados, o exame neurológico e possíveis sinais que indiquem outra causa. Ressonância ou tomografia não são necessárias em todos os casos, mas podem ser solicitadas quando o quadro apresenta características atípicas ou sinais de alerta.

O que é enxaqueca com aura?

Aura é o conjunto de sintomas neurológicos reversíveis que pode surgir antes, durante ou, mais raramente, sem a dor de cabeça. As manifestações visuais são as mais conhecidas. A pessoa pode perceber pontos luminosos, linhas em ziguezague, áreas embaçadas ou uma região temporariamente ausente no campo visual.

Também podem ocorrer formigamento que se desloca pela mão, pelo braço ou pelo rosto e dificuldade temporária para encontrar ou compreender palavras. Na aura típica, os sintomas costumam se desenvolver de forma gradual, podem ocorrer em sequência e geralmente duram de cinco a sessenta minutos.

Essas características ajudam o médico, mas não devem ser usadas para autodiagnóstico. Perda súbita de força, alteração abrupta da fala, assimetria facial ou perda repentina da visão também podem ocorrer em um acidente vascular cerebral. Quando os sintomas são novos, súbitos, diferentes do padrão habitual ou persistentes, é necessário procurar atendimento de urgência.

O que é o forame oval patente?

Antes do nascimento, o bebê não utiliza os pulmões para receber oxigênio. O forame oval permite que o sangue passe entre o átrio direito e o átrio esquerdo do coração, desviando parte da circulação pulmonar.

Depois do nascimento, com o início da respiração, essa passagem costuma se fechar. Em aproximadamente um quarto dos adultos, o fechamento não é completo. Permanece uma pequena comunicação em formato de aba, chamada de forame oval patente.

O FOP não deve ser confundido automaticamente com uma grande abertura no coração. Na maioria das pessoas, ele não causa sintomas, não interfere na rotina e nunca precisa ser tratado. Muitas vezes, é descoberto durante a investigação de outro problema.

Em determinadas condições, o FOP pode permitir a passagem de sangue do lado direito para o lado esquerdo. Essa comunicação recebe atenção especial quando existe a possibilidade de um coágulo atravessar o coração e alcançar a circulação arterial, fenômeno chamado embolia paradoxal.

Por que a enxaqueca e o FOP são estudados juntos?

Pesquisas observaram que o FOP aparece com maior frequência entre pessoas com enxaqueca, especialmente naquelas que apresentam aura. Também houve relatos de pacientes que perceberam redução das crises depois de fechar o FOP por outra indicação, como a prevenção de um novo acidente vascular cerebral.

Essas observações levaram à investigação de alguns mecanismos possíveis. Uma hipótese considera que determinadas substâncias presentes no sangue poderiam atravessar o FOP sem passar pelo filtro pulmonar e alcançar a circulação cerebral. Outra estuda a passagem de partículas muito pequenas e sua possível relação com fenômenos capazes de desencadear a aura.

Esses mecanismos permanecem em estudo. Eles são biologicamente possíveis, mas não demonstram que o FOP seja a origem da enxaqueca em uma pessoa específica. A própria enxaqueca envolve fatores genéticos, atividade das células nervosas, mediadores químicos e diferentes redes cerebrais.

Em resumo clínico

Associação não é o mesmo que causa

Quando duas condições aparecem juntas com maior frequência, existe uma associação estatística. Para afirmar que uma causa a outra, é necessário demonstrar uma relação direta, consistente e capaz de explicar os resultados observados.

O que os estudos observam

  • O FOP é encontrado com maior frequência em alguns grupos com enxaqueca.

  • A associação parece mais evidente na enxaqueca com aura.

  • Alguns pacientes relatam menos crises depois do fechamento realizado por outra indicação.

  • Há hipóteses sobre a passagem de substâncias ou partículas para a circulação cerebral.

O que ainda não se pode afirmar

  • Que o FOP seja a causa direta da enxaqueca em todos os pacientes.

  • Que toda pessoa com aura precise realizar exames para procurar FOP.

  • Que fechar o FOP seja capaz de curar a enxaqueca.

  • Que um resultado favorável observado em alguns pacientes ocorrerá em todos os casos.

No caso da enxaqueca e do FOP, ainda existem incertezas. O FOP está presente em cerca de 20% a 30% da população. Muitas pessoas com essa comunicação nunca tiveram enxaqueca. Da mesma forma, muitas pessoas com enxaqueca não apresentam FOP. Os estudos também reúnem grupos diferentes, o que ajuda a explicar por que os resultados não são iguais em todas as pesquisas.

Toda pessoa com enxaqueca precisa investigar FOP?

Não. A presença de enxaqueca, mesmo com aura, não é uma indicação automática para pesquisar FOP. O diagnóstico e o tratamento da enxaqueca devem começar pela avaliação clínica e pela escolha das terapias apropriadas.

A investigação de FOP pode entrar na avaliação quando existem outras razões clínicas. Entre elas estão um acidente vascular cerebral isquêmico sem causa definida depois de investigação adequada, suspeita de embolia paradoxal ou outras situações específicas avaliadas pela equipe médica.

Sintomas neurológicos atípicos também podem exigir investigação, mas o objetivo inicial é diferenciar aura, acidente vascular cerebral, ataque isquêmico transitório e outras condições. Procurar apenas o FOP antes de esclarecer o evento pode levar a conclusões erradas, pois a comunicação é comum e pode ser apenas incidental.

Avaliação

Como o FOP pode ser identificado?

O resultado não deve ser interpretado isoladamente. Tamanho da passagem, quantidade de microbolhas, presença de alterações associadas, histórico de AVC, idade e outras possíveis causas do evento participam da avaliação.

01

Eco com microbolhas

Ecocardiograma com contraste: observa se as microbolhas atravessam do lado direito para o esquerdo.

02

Transesofágico

Em situações selecionadas, oferece imagens mais detalhadas do septo e da anatomia da comunicação.

03

Doppler transcraniano

Pode identificar desvio para a circulação arterial; outros exames confirmam a localização no coração.

Um dos exames utilizados é o ecocardiograma com contraste de microbolhas. Durante o exame, uma pequena quantidade de solução preparada é injetada em uma veia. O ultrassom do coração permite observar se as microbolhas atravessam do lado direito para o lado esquerdo. O ecocardiograma pode ser feito pela parede do tórax. Em situações selecionadas, o ecocardiograma transesofágico oferece imagens mais detalhadas.

Fechar o FOP melhora a enxaqueca?

Alguns estudos observacionais relataram melhora da frequência ou da intensidade das crises depois do fechamento. Ensaios clínicos, porém, não demonstraram benefício consistente em seus principais objetivos. Análises mais recentes sugerem uma possível redução modesta no número de crises ou de dias com enxaqueca em certos grupos, mas não confirmam resolução completa nem benefício igual para todos.

Por esse motivo, as principais orientações internacionais não recomendam o fechamento rotineiro do FOP como tratamento da enxaqueca. A posição europeia recomenda tratar a enxaqueca com as terapias convencionais e restringir a discussão de fechamento para essa finalidade a contextos muito selecionados, como pesquisas clínicas ou uso excepcional.

A diretriz da Society for Cardiovascular Angiography and Interventions também orienta contra o fechamento de rotina em pessoas com enxaqueca que não tiveram um AVC relacionado ao FOP. Em casos raros de enxaqueca incapacitante, persistente e sem resposta às terapias adequadas, a pessoa pode desejar discutir evidências, incertezas e riscos com uma equipe especializada. Isso não equivale a uma recomendação geral.

Quando a indicação de fechamento é outra?

A situação é diferente quando uma pessoa apresenta um acidente vascular cerebral isquêmico e, depois de investigação cuidadosa, o FOP é considerado a provável via do evento. Em pacientes selecionados, o fechamento pode ser recomendado para reduzir o risco de recorrência.

Nessa circunstância, o objetivo principal não é tratar a enxaqueca. É prevenir outro evento embólico. A possível mudança nas crises de enxaqueca é uma informação secundária e não deve ser prometida.

Antes de relacionar um AVC ao FOP, a equipe procura outras causas, como alterações nas artérias, arritmias, doenças da coagulação e fatores vasculares. Como o FOP é comum, sua presença em uma pessoa que teve AVC não demonstra automaticamente que ele foi o responsável.

O fechamento do FOP apresenta riscos?

O fechamento é geralmente realizado por cateterismo, com a colocação de um dispositivo que une as duas partes do septo. Embora seja menos invasivo do que uma cirurgia aberta, continua sendo um procedimento médico e apresenta riscos.

Podem ocorrer complicações no local de acesso vascular, sangramento, alterações do ritmo cardíaco, comunicação residual e, mais raramente, problemas relacionados ao dispositivo. Também pode ser necessário utilizar medicamentos que interferem na agregação das plaquetas por um período definido pela equipe.

Esses riscos precisam ser comparados com o benefício esperado para a indicação real do procedimento. Quando o objetivo é apenas tentar reduzir a enxaqueca, a incerteza do benefício recebe um peso importante nessa decisão.

Como a enxaqueca deve ser tratada?

O tratamento depende da frequência, da intensidade, da duração das crises e do impacto sobre a rotina. Ele pode incluir medicamentos para controlar uma crise em andamento, tratamento preventivo, orientação sobre sono, alimentação, atividade física e identificação de fatores que pioram os episódios.

Um diário de crises ajuda a registrar datas, duração, sintomas de aura, intensidade da dor, medicamentos utilizados e possível relação com sono, menstruação, jejum ou outros fatores. Esse registro torna a consulta mais objetiva e permite avaliar a resposta ao tratamento.

O uso frequente de analgésicos sem orientação pode contribuir para dor de cabeça por uso excessivo de medicamentos. Também é importante não iniciar anticoagulantes, antiagregantes ou outros remédios por causa de um FOP descoberto em exame sem uma recomendação individual.

Urgência: perda súbita de força ou sensibilidade em um lado do corpo, assimetria facial, dificuldade repentina para falar ou compreender, perda abrupta da visão, desequilíbrio intenso, confusão, desmaio ou dor de cabeça súbita e muito intensa pedem atendimento imediato — emergência ou SAMU 192. Também quando o episódio é o primeiro, apresenta sintomas diferentes do padrão conhecido, começa de forma abrupta ou não desaparece como habitualmente.

Aura ou AVC: quando procurar atendimento imediato?

A aura típica costuma se desenvolver gradualmente, apresentar sintomas reversíveis e durar de cinco a sessenta minutos. Um acidente vascular cerebral frequentemente começa de forma súbita e pode produzir perda de força, sensibilidade, visão ou linguagem.

Essa diferença não é suficiente para que a pessoa decida sozinha o diagnóstico. Há sobreposição entre os quadros, e um AVC pode ocorrer em alguém que já apresenta enxaqueca com aura.

Por que a avaliação pode ser multidisciplinar?

A enxaqueca é uma doença neurológica. O FOP é uma alteração estrutural cardíaca. Quando existe histórico de evento cerebral ou dúvida sobre a relação entre os dois, a avaliação pode reunir neurologista, cardiologista, especialista em imagem, cardiologista intervencionista e equipe neurovascular.

Cada profissional responde a uma parte da investigação. A equipe neurológica caracteriza os sintomas, diferencia aura de outras condições e avalia o cérebro e sua circulação. A cardiologia estuda a anatomia do FOP, o desvio do fluxo e os riscos de uma eventual intervenção.

Essa integração evita que um achado comum receba importância excessiva e ajuda a identificar os poucos casos em que ele pode ter relevância clínica.

Dúvidas comuns

Perguntas frequentes

Respostas objetivas para as dúvidas que mais aparecem sobre enxaqueca e forame oval patente.

FOP é uma doença grave?

Na maioria das pessoas, não. O FOP é comum, geralmente não causa sintomas e pode permanecer sem necessidade de tratamento. Sua importância depende do contexto clínico, especialmente da presença de eventos embólicos ou de outras condições associadas.

O FOP causa enxaqueca com aura?

Existe uma associação mais frequente entre FOP e enxaqueca com aura, mas ainda não foi comprovado que o FOP seja a causa direta das crises. Diferentes mecanismos estão em estudo.

Quem tem enxaqueca com aura precisa fazer ecocardiograma?

Não obrigatoriamente. A aura, sozinha, não determina a investigação de FOP. O médico considera o padrão dos sintomas, o exame neurológico, o histórico de eventos vasculares e outras informações antes de solicitar exames.

Fechar o FOP cura a enxaqueca?

Não há evidência para prometer cura. Alguns pacientes apresentam redução das crises, enquanto outros não percebem mudança. As diretrizes não recomendam o fechamento de rotina apenas para tratar enxaqueca.

Ter FOP significa que a pessoa terá um AVC?

Não. A maioria das pessoas com FOP nunca apresenta um AVC. Quando ocorre um evento isquêmico, é necessário investigar outras causas antes de atribuí-lo à comunicação cardíaca.

Aura de enxaqueca pode acontecer sem dor de cabeça?

Pode. Algumas pessoas apresentam sintomas visuais, sensitivos ou de linguagem sem dor posterior. Quando isso ocorre pela primeira vez, surge depois dos quarenta anos ou apresenta padrão incomum, outras causas precisam ser investigadas.

O FOP pode ser visto em um ecocardiograma comum?

Nem sempre. O ecocardiograma com contraste de microbolhas aumenta a capacidade de detectar a passagem entre os átrios. Em alguns casos, outros métodos são necessários para definir a anatomia.

O que levar para a consulta?

Leve os laudos e as imagens de exames já realizados, além da lista de medicamentos em uso. Se houve um episódio neurológico, anote quando começou, quais sintomas apareceram, em que ordem ocorreram e quanto tempo duraram.

  • Diário de crises: frequência, intensidade, aura, duração e resposta aos medicamentos

  • Impacto sobre o trabalho e a rotina

  • Histórico de AVC, ataque isquêmico transitório, trombose venosa ou arritmia

  • Eventos semelhantes na família

Essas informações ajudam a decidir quais hipóteses precisam ser investigadas.

Conclusão

Enxaqueca e forame oval patente aparecem associados em estudos, principalmente nos casos com aura. Essa relação é cientificamente relevante, mas não comprova que o FOP seja a causa da enxaqueca em uma pessoa específica.

Por ser um achado comum e geralmente inofensivo, o FOP não precisa ser procurado em todas as pessoas com enxaqueca. Da mesma forma, seu fechamento não deve ser apresentado como tratamento rotineiro ou como promessa de cura.

A investigação faz mais sentido quando há outros elementos clínicos, como um evento cerebral sem causa definida, sintomas atípicos ou suspeita de embolia. Nesses casos, a avaliação multidisciplinar ajuda a distinguir coincidência de relevância clínica e a construir uma decisão responsável.

Se você apresenta sintomas neurológicos ou recebeu um diagnóstico de FOP, procure avaliação médica para compreender o seu caso. Este conteúdo é educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento individual.

Referências médicas e normativas

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